A mais ou menos 18 anos eu conheci uma velha, que usava dentatura e óculos. Dizem que minha mãe ficou 12 horas no parto- normal, imagina a dor pra sair esse meu cocão- e quando chegou em casa tava tão cansada que nem teve condições de me amamentar. Essa velha, sem poder amamentar, fez um leite em pó bem ralinho e pediu a Deus que não me fizesse mal. E não que eu tô vivo até hoje? Me lembro dela e sua irmã fazendo cavalinho pra mim, ou quando eu ia na casa dela só pra misturar tudo que eu encontrava e pra falar que era experiência. Foi quem me dava presentes quando meu pai não tinha dinheiro. Foi dela que recebia uma mesada simbólica. Foi dela os apelidos mais estranhos, "cabiru do rabo branco, caxote velho". Era só eu eu chegar na casa dela e deitar que ela vinha fazer massagem no meu pé. Falava os palavrões mais engraçados. Era tão racista que falava que se eu casasse com uma negra nunca iria andar com meu filho. Essa velha era Maria das Neves Primo Batista. Não era a mais bela muito menos a mais inteligente mas era a minha vó.
Não vou ser hipócrita e dizer que chorei rios. Aliás, nem chorei. Realmente acho que foi bom, ela já sofria a um tempo. Pra mim foi e tá sendo muito estranho. Primeira vez que vou em um enterro e de primeira um parente próximo. Estranho vc ver um corpo já sem vida, um corpo que deu a vida por vc, que faria qualquer coisa por vc, só pra te ver feliz e sorrindo. Sinto que minha vida é inútil. Agente trabalha a vera, estuda e tudo mais pra acabar num buraco? Por dentro eu tô mal. A ficha ainda não caiu que nunca mais irei vê-la. Sei lá, não entra. É, realmente... agente só dá valor quando perde.
O Rappa - O Que Sobrou do Céu
segunda-feira, 11 de agosto de 2008
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